domingo, 8 de novembro de 2015

Das razões do declínio da Esquerda


Faço aqui o resumo e comentário da leitura de um artigo publicado pela revista francesa La Vie, de 15-10-2015, que corrobora muito do que tenho pensado sobre aquilo que o autor, Gaël Brustier, designa de “hegemonia cultural”:

Gaël Brustier, cientista político, publicou recentemente À demain Gramsci. Retomando as ideias defendidas pelo filósofo António Gramsci, co-fundador do partido comunista italiano (1921), Brustier defende que o declínio da esquerda e a sua incapacidade em mobilizar vastos setores da sociedade decorre de os partidos que a representam terem desistido de travar a batalha cultural.

Gramsci nos Cadernos do Cárcere cunhou um termo/conceito que se reveste de particular importância, mas que tem sido negligenciado pela esquerda e que é o conceito de “hegemonia cultural”. Quem tiver a hegemonia cultural convence as pessoas de que as suas propostas são as melhores e de que não há alternativa. Logo, a luta pela hegemonia cultural é muito importante e é  tanto mais importante quanto a direita tem tudo para a ganhar: meios de comunicação, elites preparadas nas melhores escolas, dotadas de uma capacidade retórica e argumentativa invejável.
 A direita já percebeu o que a esquerda tarda em apreender: é que para ganhar, no quadro das democracias formais, não basta dominar o poder militar ou os meios de produção, é preciso convencer as pessoas de que as suas propostas são as melhores e de que não há alternativa. Ter a hegemonia cultural significa formar opinião e construir o senso comum, isto é, aquilo que o comum das pessoas pensa acerca dos temas mais candentes e problemáticos; de notar que o senso comum tende a ser acrítico e assim, uma vez estabelecido, torna-se muito difícil desalojá-lo.

Essa luta pela hegemonia cultural tem de travar-se em várias frentes, desde o campo político ao campo social em questões como, por exemplo, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a interrupção da gravidez, os paraísos fiscais, a dívida pública, etc., etc. e tem de ser travada no plano da retórica e da argumentação, encontrando-se formas criativas e pregnantes para transmitir mensagens fortes, mensagens que fiquem. As questões e as soluções estão longe de ser óbvias e é preciso defendê-las com unhas e dentes, como,aliás, a direita faz e muito bem.

Ora ao invés de refletir sobre esta questão e de travar esta luta a esquerda tem 
sistematicamente assumido uma atitude negligente que só pode conduzir ao desastre.

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