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domingo, 4 de setembro de 2011

Motins no Reino Unido e ataques terroristas

A propósito dos recentes motins ocorridos em Londres e outras cidades do Reino Unido, traduzo algumas considerações que me parecem lançar luz sobre o fenómeno:
"Os amotinados, embora destituídos de privilégios e, de facto, socialmente excluídos, não estavam a viver na linha da miséria. Pessoas em muito pior situação material, independentemente das condições de opressão física e ideológica, têm sido capazes de se organizarem em forças políticas com agendas definidas. O facto de os amotinados não terem programa é em si mesmo algo que precisa de ser interpretado: diz-nos muito acerca do nosso predicamento ideológico-político e do tipo de sociedade em que vivemos, uma sociedade que celebra a escolha mas na qual a única alternativa disponível ao consenso democrático forçado é agir de modo cego. A oposição ao sistema já não se consegue articular em termos de uma alternativa realista, ou mesmo sob a forma de um projecto utópico, mas pode apenas assumir a forma de uma explosão sem sentido. Para que serve a nossa tão apregoada liberdade de escolha quando a única escolha é entre jogar de acordo com as regras e a violência (auto) destrutiva? (…)
Os motins devem ser situados com relação a um outro tipo de violência que a maioria liberal de hoje percebe como uma ameaça ao seu modo de vida: ataques terroristas e suicídios-bomba. Em ambos os casos, violência e contra-violência integram-se num círculo vicioso, em que cada uma gera a força que procura combater. Em ambos os casos estamos perante passagens cegas à acção, nas quais a violência é uma admissão implícita de impotência. A diferença é que, em contraste com os motins do Reino Unido ou de Paris, os ataques terroristas são cometidos ao serviço de um Significado absoluto fornecido pela religião.” (Slavoj Žižek)

sábado, 18 de junho de 2011

Porque resgatar e não reestruturar a dívida?

Como sabemos, o resgate das economias da Grécia, Irlanda e recentemente de Portugal suscitou uma onda de protestos em vários países da União Europeia, capitalizados pelos partidos de extrema-direita, antes com expressão mínima, o que não augura nada de bom. Foi o que aconteceu, por exemplo, na Finlândia com os «Autênticos finlandeses»; em França com a extrema-direita da Frente Nacional, liderada por Marine Le Pen, e na Holanda onde a direita também se posicionou contra os resgastes. Para além de explorarem sentimentos xenófobas em relação a imigrantes, o mote agora é a ajuda aos povos preguiçosos e irresponsáveis da União Europeia.
Por outro lado, existe o sentimento cada vez mais disseminado de que os resgates só permitem ganhar tempo e não vão resolver a situação; os encargos com as dívidas, dada a exorbitância dos juros, são tais que não se vê muito bem como é que a economia desses países pode crescer, apenas se lhes está a fornecer meros balões de oxigénio e nada se faz para curar a doença.
A alternativa teria sido reestruturar a dívida o que significaria obrigar os credores a arcarem com prejuízos, justificados pelo facto de terem disponibilizado crédito em condições em que qualquer credor de boa fé não o teria feito. Por exemplo, se uma pessoa empresta dinheiro a outra para ela comprar luxos e supérfluos sabendo que esta não tem condições reais de pagar, rapidamente percebemos que o credor se está a aproveitar da situação para mais tarde levar o couro e o cabelo ao devedor; se isto é assim com os privados, também o é ao nível de instituições financeiras e dos países. As instituições financeiras quiseram fazer dinheiro fácil e incentivaram as pessoas e os Estados a contraírem empréstimos, ao fazê-lo correram riscos irresponsáveis portanto agora também deviam ser penalizadas; mas ninguém se atreve a fazê-lo.
A Europa optou por não seguir o caminho de reestruturação das dívidas e optou pelos resgates, mas esta opção teve custos políticos de que ainda não podemos prever as consequências; para já permitiu o fortalecimento da direita e da extrema-direita populista em países civilizados e com tradição democrática; aí a direita pode fazer um discurso muito convincente e exigir com base nesse discurso mecanismos de controlo antes impensáveis, destruindo em paralelo o estado de bem-estar social e obrigando os trabalhadores a aceitarem condições igualmente impensáveis até há bem pouco tempo.
O que é um facto é que a direita, que nos anos oitenta nos Estados Unidos e no Reino Unido acedeu ao poder com Reagan e com a Tatcher, deixou o serviço incompleto e agora tem uma boa oportunidade para alcançar o que já então era o seu desiderato: privatizar, privatizar, privatizar; eliminar ou pelo menos diminuir a proteção social do Estado e deixar as pessoas à mercê dos donos do poder, nomeadamente do poder financeiro.

domingo, 20 de março de 2011

"Obama foi anulado pelo conservadorismo de bordel dos EUA"


Excertos da entrevista exclusiva à Carta Maior, concedida pela economista Maria da Conceição Tavares
http://www.cartamaior.com.br/templates/index.cfm

CM- Por que Obama se transformou num zumbi da esperança progressista norte-americana?

Conceição - Os EUA se tornaram um país politicamente complicado... o caso americano é pior que o nosso. Não adianta boas idéias. Obama até que as têm, algumas. Mas não tem o principal: não tem poder, o poder real; não tem bases sociais compatíveis com as suas idéias. A estrutura da sociedade americana hoje é muito, muito conservadora – a mais conservadora da sua história. E depois, Obama, convenhamos, não chega a ser um iluminado. Mas nem o Lula daria certo lá.
CM- Mas ele foi eleito a partir de uma mobilização real da sociedade....

Conceição - Exerce um presidencialismo muito vulnerável, descarnado de base efetiva. Obama foi eleito pela juventude e pelos negros. Na urna, cada cidadão é um voto. Mas a juventude e os negros não tem presença institucional, veja bem, institucional que digo é no desenho democrático de lá. Eles não têm assento em postos chaves onde se decide o poder americano. Na hora do vamos ver, a base de Obama não está localizada em lugar nenhum. Não está no Congresso, não tem o comando das finanças, enfim, grita, mas não decide.
CM - O deslocamento de fábricas para a China, a erosão da classe trabalhadora nos anos 80/90 inviabilizaram o surgimento de um novo Roosevelt nos EUA?
Conceição - Os EUA estão congelados por baixo. Há uma camada espessa de gelo que dissocia o poder do Presidente do poder real hoje exercido, em grande parte, pela finança. Os bancos continuam incontroláveis; o FED (o Banco Central americano) não manda, não controla. O essencial é que estamos diante de uma sociedade congelada pelo bloco conservador, por cima e por baixo. Os republicanos mandam no Congresso; os bancos tem hegemonia econômica; a tecnocracia do Estado está acuada...
CM- É uma decadência reversível?
Conceição – É forçoso lembrar, ainda que seja desagradável, que os EUA chegaram a isso guiados, uma boa parte do caminho, pelas mãos dos democratas de Obama. Foram os anos Clinton que consolidaram a desregulação dos mercados financeiros autorizando a farra que redundou em bolhas, crise e, por fim, na pasmaceira conservadora.
CM - Esse colapso foi pedagógico; o poder financeiro ficou nu, por que a reação tarda? 
Conceição - A sociedade americana sofreu um golpe violento. No apogeu, vendia-se a ilusão de uma riqueza baseada no crédito e no endividamento descontrolados. Criou-se uma sensação de prosperidade sobre alicerces fundados em ‘papagaios’ e pirâmides especulativas. A reversão foi dramática do ponto de vista do imaginário social. Um despencar sem chão. A classe média teve massacrados seus sonhos do dia para noite. A resposta do desespero nunca é uma boa resposta. A resposta americana à crise não foi uma resposta progressista. Na verdade, está sendo de um conservadorismo apavorante. Forças e interesses poderosos alimentam essa regressividade. A tecnocracia do governo Obama teme tomar qualquer iniciativa que possa piorar o que já é muito ruim. Quanto vai durar essa agonia? Pode ser que a sociedade americana reaja daqui a alguns anos. Pode ser. Eles ainda são o país mais poderoso do mundo, diferente da Europa que perdeu tudo, dinheiro, poder, auto-estima... Mas vejo uma longa e penosa convalescença. Nesse vazio criado pelo dinheiro podre Obama flutua e viaja para o Brasil.
(…)
CM – A reconstrução japonesa, após a tragédia ainda inconclusa, poderia destravar a armadilha da liquidez que corrói a própria sociedade americana? Sugar capitais promovendo um reordenamento capitalista, como especula Paul Krugman?
Conceição - A situação da economia mundial é tão complicada que dá margem a esse tipo de especulação. Como se uma nuvem atômica de dinheiro pudesse consertar uma nuvem atômica verdadeira. Não creio. Respeito o Krugman, mas não creio. O caminho é mais difícil. Trata-se de devolver a nuvem atômica de dinheiro para dentro do reator; é preciso regular o sistema, colocar freios na especulação, restringir o poder do dinheiro, da alta finança que hoje campeia hegemônica. É mais difícil do que um choque entre as duas nuvens. Ademais, o Japão eu conheço um pouco como funciona, sempre se reergueu com base em poupança própria; será assim também desta vez tão trágica. Os EUA por sua vez, ao contrário do que ocorreu na Segunda Guerra, quando eram os credores do mundo, hoje estão pendurados em papagaios com o resto do mundo – o Japão inclusive. O que eles poderiam fazer pela reconstrução se devem ao país devastado?
CM – Muitos economistas discordam que essa nuvem atômica de dinheiro seja responsável pela especulação, motivo de índices recordes de fome e de preços de alimentos em pleno século XXI. Qual a sua opinião?
Conceição - A economia mundial não está crescendo a ponto de justificar esses preços. Isso tem nome: o nome é especulação. Não se pode subestimar a capacidade da finança podre de engendra desordem. Não estamos falando de emissão primária de moeda por bancos centrais. Não é disso que se trata. É um avatar de moeda sem nenhum controle. Derivam de coisa nenhuma; derivativos de coisa nenhuma representam a morte da economia; uma nuvem nuclear de dinheiro contaminado e fora de controle da sociedade provoca tragédia onde toca. Isso descarnou Obama.

É o motor do conservadorismo americano atual. Semeou na America do Norte uma sociedade mais conservadora do que a própria Inglaterra, algo inimaginável para alguém da minha idade. É um conservadorismo de bordel, que não conserva coisa nenhuma. É isso a aliança entre o moralismo republicano e a farra da finança especulativa. Os EUA se tornaram um gigante de barro podre. De pé causam desastres; se tombar faz mais estrago ainda. Então a convalescença será longa, longa e longa.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Intelectualidade bem pensante e ditaduras

Tanta gente preocupada com o Egipto e tão pouca atenção dada ao que se continua a passar no Irão onde, de 20 de Dezembro de 2010 a 31 de Janeiro de 2011, 121 pessoas - em média uma pessoa a cada oito horas - foram executadas, segundo dados da International Campaign for Human Rights in Iran (ICHRI) . E muitas dessas execuções decorrem daquilo que se designa por delitos de opinião ou infracções aquilo que as autoridades consideram o correcto comportamento moral que aqui está ligado à conduta sexual das pessoas. Sob o racional de que não se pode deixar corromper a juventude iraniana, semeia-se o terror e promove-se a mais execrável censura.
Como este país é inimigo dos EU e como a intelectualidade bem pensante do Ocidente continua ambígua e a não perceber que pode arranjar lenha para se queimar, deixa isto na sombra; aplaude a destituição do regime egípcio, «amigo» dos EU e remete-se ao silêncio quando se trata do inimigo, tão ou mais ditatorial, e muito mais perigoso porque alia a reacção política à reacção religiosa.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

As ajudas perversas dos E.U

Como se pode comprovar facilmente, as ajudas dos Estados Unidos a um país são pura e simplesmente para este levar a cabo a política que interessa aos EU. Claro que os EU consideram os seus interesses justos, mas quem não considera? Assim, com as suas pretensas ajudas, limitam-se a pagar um serviço para alguém fazer o trabalho sujo por eles. E há mais um pormenor interessante, essas ajudas orientam-se para o sector militar e de armamento, destinam-se obviamente à compra de material bélico e afins, de modo que, na volta, a indústria de armamento norte-americana acaba recebendo em boa parte o que o Estado com o dinheiro dos contribuintes forneceu a esses países. A indústria de armamento e respectivas empresas estão justificadas e podem continuar a produzir com a garantia de que vão colocar os seus produtos e receber lucros chorudos.
Como essas ajudas são prestadas independentemente da natureza dos regimes políticos dos respectivos países e, pela dinâmica de forças existente, dirigidas, de uma maneira geral, a países com regimes ditatoriais, impopulares e corruptos, pouco preocupados com o desenvolvimento do nível de vida e bem-estar da população, os EU colocam-se a jeito e transformam-se no bode expiatório, facilmente identificável, para “explicar” por que as coisas correm mal. Na confusão instalada, aqueles que souberam criar uma cintura de isolamento com vista a não se deixarem contaminar pelo país emprestador e pelos seus valores, acabam por se beneficiar e sem grande dificuldade apropriam-se do poder, muitas vezes através do famoso voto democrático e com o aval das populações. Melhor nem de encomenda.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Defender democracia e exportar autocracia

Não é o radicalismo islâmico que preocupa os EU, é a independência
Esta a tese defendida por Noam Chomsky, em artigo de 4 de Fevereiro publicado no Guardian.
Os EU sempre tem apoiado regimes ditatoriais em várias épocas e diferentes partes do mundo, desde, por exemplo, Ferdinand Marcos, (Filipinas) passando por Jean Claude Duvalier (Haiti), Chun Doo-Hwan (Coreia do Sul), Suharto (Indonésia), e muitos outros gangsters da política.
Quando os ditadores tremem, o amigo americano procura distanciar-se e sobretudo assegurar uma transição que não ponha em causa os seus interesses, muito convenientemente identificados como justos e nobres. O que teme é que então se estabeleçam regimes independentes que fujam ao seu controlo, o serem radicalistas islâmicos é secundário, até porque ao fim ao cabo não têm qualquer prurido em apoiar este tipo de regimes como é o caso da Arábia Saudita, centro do radicalismo e até do terrorismo islâmico. O que não quer é perder o controlo.
Na Tunísia e no Egipto, os EU investiram milhões de dólares em ajudas militares sem se preocuparem com a natureza autocrática de regimes corruptos que mantém as populações na miséria e não criam oportunidades de desenvolvimento. Depois ficam muito ofendidos com a incompreensão dos povos - que os odeiam - e acabam limpando as mãos à parede pelas burradas que fazem, sem parecerem dar-se conta da contradição que é defender democracia e “exportar” a autocracia.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Quem viver verá!

Aparentemente as multidões que se manifestam no Egipto, cansadas da ditadura e da correspondente miséria, anseiam por uma sociedade justa, participativa e democrática e por isso vemos comentários exaltantes sobre elas, muito optimistas quanto ao desfecho da situação.
É bom não esquecermos, todavia, que por ora o poder parece estar na rua, mas quando for oportuno vão aparecer protagonistas. Obviamente, os mais coesos, os mais bem organizados recolherão os dividendos  e toda a gente sabe que esses serão os fundamentalistas religiosos que o ditador em crise nunca hostilizou abertamente e que só estão à espera de uma aberta para mostrarem a sua verdadeira face. Gostaria de estar enganada, quem viver verá. De outro modo como perceber que sejam os países com governos seculares os visados por tanta perturbação e reivindicação?

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Egipto e ditaduras

O que se está a passar no Egipto pode revestir-se de consequências graves para os Estados Unidos e para o Mundo Ocidental em geral. É bom não esquecermos que o  Egipto foi o primeiro estado àrabe a fazer paz com Israel e a sua importância estratégica é enorme.
Corre-se o risco de se ver instalada na região uma teocracia islâmica ou algo afim. Claro que actualmente é uma ditadura e mais uma vez a politica externa dos E. U está a colher o que semeia, ao aceitar alianças sem exigir respeito dos governantes por direitos elementares, mas neste momento é caso para perguntar qual é a alternativa já que uma teocracia é uma ditadura bem mais temível pois para governar e para se impor conta com o inestimávael aval da divindade que os seus ministros se dizem representar e interpetrar.